RITMOS EM 6/8.

ROBERTO RUTIGLIANO (2026)

RITMOS EM 6/8

Originários da África, os ritmos com “feeling” em 6/8 carregam uma sonoridade ancestral que se distingue das demais cadências globais, transmitindo uma sensação elementar da música. Diferente de uma valsa em 3/4 ou de um ternário, o 6/8 possui uma força pulsante que remete à circularidade das raízes africanas. Esta família rítmica é singular à tradição africana, não encontrando paralelos diretos nas estruturas tradicionais das músicas europeia, indígena ou oriental.

A SUBDIVISÃO E A ESCRITA

Uma vez que esse “feeling” popularizou-se sob a nomenclatura de 6/8, utilizaremos este termo para referenciá-lo. Na teoria musical, o 6/8 é classificado como um compasso binário composto, pois possui dois tempos principais com subdivisões ternárias. Embora seja comumente grafado em 6/8 (tendo a semínima pontuada como unidade de tempo), a recorrência de células de quatro tempos permite que seja escrito também em 12/8. Para fins práticos, preferimos concebê-lo como quiálteras dentro de um compasso 4/4, resultando em um ritmo quaternário com subdivisão interna de três notas por tempo.

A ORIGEM

Os ritmos em 6/8 fundamentam as tradições africanas Bantu, Iorubá e de Calabar. O termo Bantu (ou Banto) refere-se ao vasto tronco linguístico que abrange povos da África Central e de África do Sul. Suas civilizações, como os reinos do Congo e do Ndongo, estabeleceram os pilares da cultura banto-brasileira. Essa herança centraliza-se no Candomblé de Angola e manifesta-se em ritmos fundamentais como os da Capoeira, do Samba e do Jongo.

A tradição Iorubá, por sua vez, origina-se na região das atuais Nigéria e Benin. Caracteriza-se por uma estrutura social e religiosa complexa, dedicada ao culto aos Orixás. No Brasil, essa tradição desdobra-se através do Candomblé Ketu e de ritmos rituais marcantes, como o Vassi e o Alujá.

A REGIÃO DE CALABAR E A HERANÇA ABAKUÁ

A região de Calabar, situada em uma península na costa oriental da Nigéria, preserva o legado dos povos Efik e de suas sociedades secretas, como a Ekpe. Esta influência atravessou o Atlântico, manifestando-se de forma vigorosa na tradição Abakuá, em Cuba. É fundamental compreender que as nomenclaturas: Congo, Iorubá e Calabar designam troncos linguísticos e culturais amplos que abrangem diversos povos. Na musicalidade, tais distinções são importantes porque cada tronco possui uma lógica estrutural própria, que se traduzem em ritmos, danças, instrumentações e mitologias específicas, estabelecendo uma relação singular com suas divindades.

A DIÁSPORA DO 6/8 E AS ROTAS TRANSATLÂNTICAS

Os desdobramentos da rítmica em 6/8 dessas tradições africanas floresceram nas Américas, com presenças marcantes no Brasil, em Cuba, na Argentina e no Peru, além de diversas outras regiões do globo. Essa dispersão é um reflexo direto das rotas do tráfico transatlântico, que transportaram corpos, mitos e cantos que redefiniram a sonoridade mundial.

Aqui um mapa da rota do tráfico de escravos.

NO BRASIL

No Brasil, embora essa métrica não seja a base predominante da música popular massiva, ela pulsa com extrema força e vitalidade na música de raiz afro-brasileira. É nos terreiros, quilombos e festas tradicionais que encontramos a essência do 6/8.

TRADIÇÃO BANTU (CONGO-ANGOLA)

Jongo: Dentro da cultura Bantu, destaca-se o Jongo (também conhecido como Caxambu). Mais do que uma manifestação festiva, o Jongo é uma tradição ritual que se consolidou na região do Vale da Paraíba, no Sudeste brasileiro. No Rio de Janeiro, um dos baluartes mais emblemáticos é o Jongo da Serrinha.

Referência: Álbum de Beth Carvalho dedicado ao Jongo da Serrinha.

https://youtu.be/HLyOXa4ZfOo?si=faFwegqCq4b4wZqW

CONGADA.

Diversos ritmos da Congada também integram a tradição do 6/8. Presente em estados como Pernambuco, Goiás, Paraná e, com especial força, em Minas Gerais, a Congada funde elementos de rituais africanos com tradições cristãs. A manifestação encena a coroação de um Rei do Congo, celebrando a resistência e a memória da ancestralidade negra.

https://youtu.be/W7SG8TRdrto?si=Dha3bKPgAY5DkrhC

CANDOMBLÉ NAÇÃO ANGOLA.

Dentro da tradição Bantu, destaca-se o ritmo Barravento, um dos pilares da Nação Angola no Candomblé. Caracterizado por sua aceleração e energia vibrante, o Barravento é aqui apresentado através de uma aula didática de Dofono de Omolú, que demonstra a transição e a sustentação dessa célula rítmica em 6/8.

.https://youtu.be/8W9pEPCQiUY?si=PDchvAqHERNjviZi

TRADIÇÃO IORUBÁ (KETU-KETO-QUETO-NAGÓ).

Como mencionado, a tradição Iorubá engloba povos das regiões que hoje compreendem a Nigéria e o Benin. No âmbito da Nação Ketu (também conhecidas como Nagô e Queto), os ritmos Vassi e Alujá estruturam-se sobre uma linha-guia específica, que também é encontrada no Barravento de linhagem Congo e na tradição Lucumí, em Cuba.

O Vassi , referido em certas linhagens como Vassi Lento ou Mojubá, compartilha sua célula rítmica fundamental com diversos outros toques. O fator determinante que distingue cada uma dessas variações é a condução do Rum (o tambor solista), aliada ao andamento e às variações de dinâmica, que modificam a intenção e o caráter ritual de cada toque.

Vassi.

https://youtu.be/c72lE8Q_rFc?si=-84ElxI0dL2yZhBD

Alujá.

https://youtu.be/mYJdf9UXFDE?si=-RdtXJjYaeAZqdmU

A CONEXÃO ENTRE RITMO E DIVINDADE

No Candomblé, os toques não existem de forma isolada; eles são parte de um complexo indissociável que envolve a dança, o mito e a própria personalidade do Orixá evocado. O Alujá, por exemplo, é um ritmo “quente”, caracterizado por sua vivacidade e vigor, dedicado a Xangô, o rei do trovão e da justiça.

O 6/8 NO SAMBA CONTEMPORÂNEO.

No Samba-Enredo da Beija-Flor de 2026, a rítmica em 6/8 pulsa de maneira subliminal em toda a sua cadência (o chamado swing), mas torna-se explícita no minuto 2:05. Neste trecho, o ritmo é citado de forma clara, revelando como a herança ancestral da tradição banto e iorubá continua a estruturar e enriquecer a sonoridade das escolas de samba modernas.

https://youtu.be/1-0_70q7gjE?si=geL_rtDkEe3qP59v

CUBA.

BEMBÉ.

Em Cuba, a herança iorubá manifesta-se através da Santeria, também conhecida como Regla de Ocha ou Regla Lucumí. Esta tradição guarda paralelos profundos com o Candomblé da Nação Ketu no Brasil.

O termo Bembé refere-se originalmente à festa e à reunião comunitária, equivalente ao que chamamos de Xirê no Brasil. Entretanto, o nome também é atribuído a um ritmo específico, estruturado em 6/8. A célula rítmica do Bembé é marcada pelo uso do cowbell (campana), que executa a linha-guia enquanto os tambores sustentam as variações.

Aqui escutamos o cowbell do Bembé e duas variações

https://youtu.be/nghKUGHG388?si=JOJtx_Kvu5yAjGFP

OS BATÁS.

Os Batás são os tambores sagrados utilizados nos cultos iorubás em Cuba. Nestes instrumentos, os ritmos recebem o nome das divindades a que se destinam, havendo toques específicos para Eleguá (Exu no Brasil), Xangó, Iemanjá e Ogum. Os toques são estruturados em diversas seções internas, muitas das quais exploram a métrica em 6/8. Um exemplo emblemático é o toque dedicado a Eleguá, conhecido como Latopa; sua rítmica vibrante e dinâmica manifesta a personalidade astuta e lúdica deste Orixá, responsável por abrir os caminhos.

https://youtu.be/EgLgvPKDLZ4?si=UjJHy0IAyQZja1iL

RUMBA.

No universo da Rumba cubana, a Columbia destaca-se por ser executada em 6/8. Enquanto os estilos Yambú e Guaguancó estruturam-se sobre métricas binárias (baseadas na subdivisão de colcheias e na tradicional Clave de Rumba em 4/4), a Columbia preserva a subdivisão em 6/8. Essa característica confere ao gênero um “balanço” africano ancestral e vigoroso, guardando uma proximidade técnica e estética muito estreita com os toques de Abakuá.

https://youtu.be/4-rksifEt14?si=-cm-u8UAwlC0Usxt

ABAKUÁ.

Originária da região de Calabar, a tradição Abakuá estabeleceu-se em Cuba como uma irmandade iniciática de proteção mútua. Esta “sociedade secreta”, de caráter estritamente masculino, possui rituais complexos onde se destaca a figura dos Iremes(conforme ilustrado ao lado) e mitologias fundantes, como a da Princesa Sikán, cujo sacrifício simboliza a transmutação da voz sagrada no som do tambor.

A execução rítmica do Abakuá é coletiva, exigindo um conjunto grande de percussionistas para sustentar sua trama polirrítmica, que pode variar do andamento lento ao acelerado. Histórica e musicalmente, acredita-se que o padrão executado pelo cowbell (campana) principal nesta tradição seja a célula rítmica primordial que deu origem à Clave Cubana, servindo de base para o desenvolvimento de diversos gêneros da ilha.

Canta Yoruba Andabo

https://youtu.be/ya2hS5qhO6Q?si=9t_CRK0rsCMsjcnF

ARARA.

A tradição Arará chegou a Cuba vinda da região do antigo Daomé (atual Benin), estabelecendo raízes profundas principalmente na província de Matanzas. Preservando a herança dos povos Fon e Ewe, esta vertente possui um vasto repertório de toques e cânticos rituais. Apresentamos, a seguir, um registro sonoro da musicalidade Arará, seguido por um documentário que explora a riqueza e a complexidade de todo o seu universo cultural e religioso.

https://youtu.be/0QtYO8qsmxw?si=YpNMYIdGTmYQJl3U

https://youtu.be/55rgA6lxnvo?si=9C2IhFVda-xEhOrH

PALO MONTE.

No âmbito das tradições de origem Bantu (Congo/Angola) em Cuba, destaca-se a Regla de Palo ou Palo Monte. Esta vertente religiosa fundamenta-se no culto às forças da natureza e aos antepassados. Seus rituais centralizam-se na Nganga, um receptáculo sagrado que reúne elementos como galhos, terra e outros componentes rituais para concentrar a energia espiritual. A musicalidade do Palo Monte é fortemente estruturada na métrica 6/8, caracterizada por uma percussão intensa que sustenta a comunicação com o mundo espiritual.

https://youtu.be/cOvgiMH68cg?si=W8VTH7YBcdTUA6hT

ARGENTINA.

CHACARERA.

No centro oeste da Argentina, na região de Santiago del Estero especificamente em Salamina temos a Chacarera.

Ela chega como um desdobramento do Zamacueca que é um ritmo afro peruano que misturou na sua origem, a musicalidade africana, cigana e espanhola. A variante chilena se chama Cueca e se escuta até hoje na região de Cuyo entre Chile e Argentina.

A Chacarera se toca num instrumento de percussão chamado bombo legüero(tambor tradicional argentino) o toque cria uma polirritmia que permite interpretá-la simultaneamente em 6/8 e em 3/4 conferindo à Chacarera aquele balanço característico onde o binário composto e o ternário dialogam constantemente.

Aqui um exemplo de Zamacueca e outro de Chacarera.

https://youtu.be/0_c8tIfULEU?si=zYLOsYEntOXeC8Ds

https://youtu.be/2LlRonA3tHY?si=7ZX0WAu0aSd3Nx_t

A Chacarera compartilha sua base rítmica com outros gêneros tradicionais argentinos, como o Malambo, o Gato e El Palito. Embora pertençam à mesma família rítmica do 6/8 (com suas constantes superposições em 3/4), a distinção entre eles reside na instrumentação, na estrutura formal da composição e na coreografia. O Malambo, em particular, destaca-se como uma dança de destreza masculina, focada no sapateado, onde o bombo legüero dita o pulso vigoroso da tradição gaúcha.

Referência: Escutamos a seguir um Malambo, observando a força e a precisão da subdivisão rítmica.

https://youtu.be/dsof1zfMyKc?si=UYgovcUhCfJS0VVu

AMERICA DO NORTE.

No universo do Jazz, do Blues e do Jazz Shuffle, o conceito de colcheias swingadas(swung eighth notes) baseia-se, essencialmente, em uma subdivisão ternária. Embora a partitura seja muitas vezes grafada em 4/4, a execução prática é uma interpretação em 12/8 ou 6/8. Esse “feeling” é a herança direta da rítmica circular africana adaptada aos instrumentos ocidentais, conferindo ao gênero o seu balanço característico.

Referência: Escutamos a seguir um exemplo de Jazz Shuffle, onde a pulsação em tripletos (quiálteras) evidencia essa raiz em 6/8.

https://youtu.be/5FPlhriuP8o?si=pe-IqgZBedhLXdkO

Aqui exemplos de blues tradicionais tocados dentro deste feeling

https://youtu.be/Kamrj5sGd1Q?si=LnUvfqo5gOHqvIYe

PERU.

Na riqueza da música afro-peruana temos o Festejo e o Landó, o primeiro de origem Bantu é o principal expoente da sonoridade em 6/8. O Landó, com seu andamento mais moderado e melancólico se assemelha á Zamacueca.

Nessas tradições, a métrica composta permite um diálogo constante entre o binário e o ternário, criando uma síncope característica da costa do Peru.

Referência: Escutamos agora “Toro Mata”, uma das obras mais emblemáticas deste universo, onde a célula rítmica do 6/8 sustenta toda a narrativa da canção.

https://youtu.be/P_W0d7o6cQQ?si=fEQmg9CDpceZwm8o

Agora escutamos um Landó

https://youtu.be/ecdurww5d84?si=RbxEx5ZgF6ZsOcXK

FLAMENCO ESPANHOL.

O Tanguillo representa um dos elos mais fascinantes da tradição afro-espanhola. Durante o século XIX, consolidou-se um fenômeno musical entre Cuba e Espanha conhecido como os “Cantes de Ida e Volta”: ritmos que cruzaram o Atlântico, transformaram-se nas Américas e retornaram à Península Ibérica com novas cores. O Tanguillo, que se desenvolveu com especial vigor na cidade portuária de Cádiz, é um expoente do gênero Flamenco que preserva essa pulsação em 6/8. Com sua cadência lúdica e saltitante, ele reflete a síncope africana e caribenha perfeitamente integrada à estrutura da guitarra e do sapateado espanhol..

https://youtu.be/KDloVcQipxc?si=j6Hf6R3NQtMXBsjB

EXEMPLOS DE RITMOS EM 6/8 NA MÚSICA MODERNA.

Mongo Santamaria

Mongo da tradição Abakuá criou a música Afro-Blues

https://youtu.be/YbE7jf_Hp5w?si=wWnIkR3noPcF3Eln

Dizzie Gillespie

No groove do tema A de Night in Tunissia toca em 6/8

https://youtu.be/mkemox0461U?si=4mlj3-I_zKR6U1HF

Moacir Santos

A introdução do tema Nana no disco “Ouro Negro” está em 6/8 e a música “Coisa número 4” também

https://youtu.be/l4xdsp2P1BU?si=UIhlHHCk1zvlFGpz

https://youtu.be/Yu9tB-YPwHA?si=run-ZryQgZNnnbc0

Conrad Herwig

O trombonista fazendo uma homenagem ao Miles Davis

https://youtu.be/kbTtdImacV8?si=QqgoZ2GJTmONXgVE

Chango Farias Gomes

O músico argentino mistura música cubana e Chacarera

Grupo Xekerê

Música de Xandy Rocha, músicos de vários países tocando uma composição dedicada à Floresta.

https://youtu.be/BAdHX2XzmmM?si=kL0znl4GBPThwnpR

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O estudo do “feeling” do 6/8 nos revela o espaço onde o binário e o ternário dialoga constantemente. Escutar e tocar este tipo de ritmo não é apenas uma questão de contagem de tempos, mas de percepção de um “balanço” circular que nos remete a uma sonoridade ancestral sobre a qual se ergueram alguns dos gêneros mais influentes da música ocidental, do Blues à Rumba, do Jongo ao Jazz.