Por Roberto Rutigliano
A orientação metodológica da nossa abordagem está baseada em quatro pilares fundamentais: sonoridade, tempo, linguagem e estilo.
Nesse caminho, escolhemos começar o estudo da bateria no jazz com uma música do disco “Kind of Blue”, tanto pela importância histórica do álbum quanto pela simplicidade e clareza com que a bateria se comporta.
Realizaremos um estudo de iniciação ao jazz a partir da gravação do tema “Freddie Freeloader”, um blues composto por Miles Davis. A faixa foi gravada em 1959 e lançada no álbum “Kind of Blue”, uma das obras mais marcantes da história da música. A escolha desta peça deve-se à sua clareza estrutural, que permite visualizar de forma concreta elementos como tempo, condução, dinâmica, comping (interação no acompanhamento) e economia de notas.
A formação na faixa conta com Jimmy Cobb na bateria, Paul Chambers no contrabaixo e Wynton Kelly no piano (que substituiu Bill Evans especificamente neste tema). Na frente de sopros, temos Miles Davis no trompete, John Coltrane no sax tenor e Cannonball Adderley no sax alto.
O BLUES E A PERFORMANCE DE JIMMY COBB
A estrutura é um blues de 12 compassos (12-bar blues) em um andamento de aproximadamente 128 a 130 BPM. A performance do baterista Jimmy Cobb destaca-se pela economia e pelo bom gosto, tornando-se uma referência essencial para compreender como tocar o estritamente necessário com excelência.
ROTEIRO DE ESTUDO
1. Mapeamento da Forma e Canto do Tema
- Estrutura: Reconhecer o ciclo harmônico dos 12 compassos. Mapear as tensões, distensões, momentos de crescimento e pontos de repouso.
- Melodia: Identificar a linha melódica e cantar o tema até internalizá-lo completamente levando simultaneamente o tempo com os pés.
2. Escuta Ativa e Analítica (Sem o Instrumento)
Ouvir a faixa repetidamente com foco exclusivo na bateria para identificar:
A localização e a estabilidade do pulso.
A articulação e a condução do swing por Jimmy Cobb.
A precisão do hi-hat (nos tempos 2 e 4).
A distribuição das intervenções na caixa.
O comportamento do baterista em relação ao piano (realizando pequenos comentários na caixa) e ao contrabaixo (reforçando a marcação da base).
O uso do silêncio e dos espaços.
Nota importante: É fundamental perceber que o movimento do ciclo harmônico de tensões e distensões determina o uso dos viradas/fills nos momentos de tensão, bem como o descanso nos momentos de estabilidade harmônica. Frequentemente, por falta de percepção desse comportamento, o baterista amador insere variações indevidas em locais inadequados.
Referência de indicações de Thelonious Monk:
Monk escreveu uma série de regras básicas que são necessárias para fazer música.
A segunda regra coincide com algo que mencionamos aqui : levar o tempo com o pé e cantar a melodia enquanto estamos tocando. Essas são verdades que realmente ajudam a crescer musicalmente, porque fortalecem as bases e nos ajudam a nos situar dentro da música.
Essa não é uma regra inventada por nós, nem por Monk. Seguramente, ela também é utilizada em outros contextos. Ela surge da constatação prática do fazer musical.
3. Prática no Instrumento: Condução e Sensação
Toque no Ride: Compreender que a condução no prato não é mecânica; busca-se leveza, controle de dinâmica e qualidade sonora.
Integração Ride + Hi-Hat: Combinar a condução do prato com a marcação do pé no hi-hat, reproduzindo a sensação (feeling) de Cobb sem adicionar elementos extras.
4. Análise do Comping pelos Ambientes da Música
Observar como o padrão de acompanhamento evolui ao longo dos diferentes momentos da faixa:
- Tema principal
- Solo de Wynton Kelly (piano) — 0:45
- Solo de Miles Davis (trompete) — 2:13
- Solo de John Coltrane (sax tenor) — 4:30
- Solo de Cannonball Adderley (sax alto) — 6:21
- Solo de Paul Chambers (contrabaixo) — 8:14
- Retorno ao tema — 8:56
Note como o vocabulário de Cobb adapta-se organicamente à intensidade e ao estilo de cada solista.
5. Estudo Específico do Comping de Caixa e Pratos
Articulação: Perceber o uso frequente do aro no tempo 4.
Dinâmica: Mapear as pontuações leves (ghost notes) e as síncopas aplicadas em resposta às frases do piano e dos sopros.
Condução: A constante acentuação do spang-a-lang, mantendo o tempo fluido e “para atrás” (laid-back).
Hi-Hat (2 e 4): Aberturas sutis e marcação sólida no hi-hat, incluindo a abertura sutil antes do primeiro tempo 1 do solo de Wynton Kelly, que define a transição para uma nova seção.
Dinâmica de Transição: O crescendo e a descida brusca que antecedem a entrada de cada solista, aquecendo a performance e demarcando o início de cada improviso.
Áudio original de referência: