Por: Roberto Rutigliano
Em outro artigo, falamos detalhadamente sobre a história da bateria no Brasil:
https://pearldrumbrasil.com.br/os-primeiros-bateristas-do-rio/
Hoje, vamos nos deter em um dos grandes protagonistas dos primórdios da bateria brasileira: Walfrido Silva (1904–1972).
Em especial, abordaremos o disco Gafieira, de Gadé e Walfrido Silva, lançado pela gravadora Musidisc em LP de 10 polegadas. O álbum é particularmente interessante por reunir apenas os dois músicos: Gadé ao piano e Walfrido Silva na bateria. As oito faixas são composições da dupla, entre as quais destacam-se “Na Cadência do Tambor”, “Vou Casar no Uruguai”, “Cem Anos de Perdão”, “Tudo Agora É Sonho”, “Vai Cavar a Nota”, “O Feitiço Virou”, “Perdi a Aposta” e “Meu Consolo”.
É justamente “Na Cadência do Tambor” que nos interessa em especial. O próprio título já anuncia uma concepção estética: aqui, o tambor não é mero instrumento acompanhador; é o elemento fundamentador que estabelece a cadência, o balanço e o caráter da interpretação.
Para compreender melhor essa gravação, convém lembrar que a bateria, tal como a conhecemos hoje, não nasceu pronta. Nos primórdios de sua história, ainda não existia a função de condução contínua no prato que se tornaria tão característica do jazz e da música popular moderna. Os primeiros conjuntos de bateria combinavam elementos oriundos das bandas de marcha, essencialmente caixa e bumbo , além de pratos suspensos, blocos de madeira (woodblocks) e outros acessórios percussivos. A condução fluida e contínua no prato (ride), com a qual nos acostumamos a ouvir, consolidou-se posteriormente, sobretudo a partir das inovações de Kenny Clarke no início dos anos 1940.
Em New Orleans, a caixa ocupava papel central nas primeiras formações de bateria ligadas ao jazz. O baterista, vindo de uma forte tradição de regimentos e bandas marciais, precisava sintetizar num só instrumento funções antes distribuídas entre vários instrumentistas. O resultado era uma abordagem acentuadamente percussiva, baseada em rudimentos, acentuações, rufos e articulações derivadas da linguagem militar.
No Rio de Janeiro, antes da consolidação do kit moderno de bateria, a caixa também figurava como um dos eixos da condução rítmica, mas a musicalidade do instrumentista inspirava-se na linguagem dos regionalismos percussivos e do samba urbano: no pandeiro, no tamborim, no ganzá, no agogô e no tam-tam.
O repertório era composto por maxixes, valsas, marchinhas, choros, sambas e batucadas, interpretado a partir de uma matriz eminentemente percussiva.
É nesse cenário que a figura de Walfrido Silva se projeta de forma decisiva.
Baterista e compositor, Walfrido atuou intensamente, em especial nas décadas de 1930 e 1940, em inúmeras gravações ao lado de grandes ícones da música brasileira, como Carmen Miranda, Francisco Alves, Aracy de Almeida e Mário Reis. Ao lado de Luciano Perrone, é legitimamente considerado um dos pioneiros da bateria moderna no Brasil.
Walfrido, contudo, não se limitou ao papel de acompanhador; em diversos momentos, ocupou o primeiro plano do arranjo. O disco Gafieira representa um desses ápices. Há algo de extremamente vanguardista na escolha de registrar um álbum reduzido ao diálogo essencial entre o piano e a bateria.
Mais extraordinário ainda é constatar que, segundo relatos históricos sobre essa sessão de gravação, Walfrido executou as partes percussivas predominantemente com as mãos. Tal detalhe transforma a experiência de escuta: o som deixa de ser o da bateria moderna em sua função convencional de marcação/condução e passa a revelar uma relação física, orgânica e direta entre o músico e o couro do tambor.
O estilo estava intrinsecamente conectado à dança. Gafieira era a denominação dada aos bailes populares animados por orquestras e conjuntos. Mas tornou-se também uma forma de tocar: uma interpretação articulada em função do dançarino. Nesse contexto, a música necessitava induzir o movimento do corpo. O músico tocava com o olhar voltado para o salão. Parece um princípio simples, mas exige enorme sabedoria rítmica.
Existe uma tendência recorrente, sobretudo no universo instrumental, de “tocar demais”, acumular viradas, síncopes complexas e excesso de informação rítmica. Na gafieira, ocorre o oposto: privilegia-se a economia e a precisão a serviço do passo.
O swing não pode ser afobado; exige um groove relaxado, assentado e rigorosamente no tempo. Não há espaço para a exibição técnica gratuita; o verdadeiro virtuosismo reside na capacidade de sustentação do balanço e da cadência.
Trata-se de uma linguagem desprovida de vaidades. A bateria não clama “olhem para mim”; ela convida: “dancem”. Esse preceito torna-se translúcido em “Na Cadência do Tambor”.
A composição, parceria de Gadé e Walfrido, soa como um autêntico manifesto estético. O tambor se faz presente tanto no título quanto na espinha dorsalda interpretação. Não se trata de uma bateria servindo de mero pano de fundo ao piano, mas de um diálogo límpido entre dois mestres em que o ritmo ganha corpo e substância física.
A cumplicidade entre ambos foi determinante. Gadé e Walfrido não eram meros instrumentistas reunidos ocasionalmente no estúdio: eram parceiros de composição e ajudaram a edificar capítulos fundamentais da nossa música popular. O LP Gafieira (gravado em 1956 e reeditado na íntegra no LP Piano Brasileiro, de 1958) documenta esse encontro de forma memorável e singular.
Assim, ouvir “Na Cadência do Tambor” hoje é reencontrar o momento exato em que a bateria brasileira gestava e afirmava sua identidade.
Antes da ideia de que o instrumento deveria funcionar como um metrônomo rígido ou contínuo, existia a cadência. Antes do malabarismo técnico, reinava a necessidade primordial de fazer o corpo mover-se.
Talvez resida aí a grande lição de Walfrido Silva: tocar para a dança exige domínio profundo do tempo, do ritmo e da dinâmica.
“Na Cadência do Tambor” é, portanto, muito mais do que um registro fonográfico do passado: é um documento histórico e vivo de uma concepção percussiva em que o ritmo emana do couro, do corpo e do gingado brasileiro.
REFERÊNCIAS
- ARQUIVO MARCELO BONAVIDES
https://www.marcelobonavides.com/2021/01/relembrando-walfrido-silva-49-anos-de.html
- PÁGINA NO FACEBOOK (ADMINISTRADA POR JOSÉ ALBERTO SIQUEIRA GOMES)
- DICIONÁRIO CRAVO ALBIN DA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA
- CASA DO CHORO
- VASCONCELOS, Ary. Panorama da Música Popular Brasileira (Vol. 2). São Paulo: Editora Martins, 1964.