Por: ROBERTO RUTIGLIANO

Estúdio de percepção rítmica: corpo, voz e internalização musical.
O curso estúdio de percepção rítmica: corpo, voz e internalização musical tem como base a
compreensão de que a aprendizagem musical ocorre prioritariamente por meio da percepção
interna do som, antes de sua execução instrumental e de sua representação gráfica. Essa
abordagem desloca o eixo tradicional do ensino musical, historicamente centrado, na leitura,
para um modelo no qual escuta, corpo e voz assumem papel estruturante no processo
formativo.
Na tradição acadêmica, o estudo da subdivisão rítmica, da entoação e da leitura cantada foi
consolidado sob a denominação de Solfejo. Em abordagens pedagógicas contemporâneas,
esse campo passa a ser compreendido como “estudo da percepção”, termo que amplia o foco
para além da decodificação simbólica, enfatizando a internalização do tempo, da altura e da
forma musical.
O curso parte do princípio de que a percepção musical se organiza a partir da integração de
três dimensões fundamentais da memória: a memória sonora, ligada à escuta ativa e à escuta
interna; a memória física, na qual o corpo se estrutura como agente de coordenação,
repetição e organização temporal; e a memória visual, associada à leitura musical,
compreendida como registro e apoio cognitivo.
Historicamente, o ensino formal privilegiou a memória visual, frequentemente antecipando a
leitura em relação à escuta e à experiência corporal do tempo. Neste curso, a leitura musical
não é abolida como no caso de métodos como o Zuzuki, mas reposicionada como ferramenta
auxiliar, introduzida após a assimilação rítmica e melódica realizada por meio da voz e do
corpo.
O PULSO E O RITMO.
Do ponto de vista metodológico, o projeto se organiza a partir de duas direções
complementares.
A primeira direção está voltada à solidificação do pulso, tendo o corpo, e especialmente o pé,
como referência temporal. O objetivo é transformar o corpo em uma âncora rítmica,
funcionando como um metrônomo orgânico capaz de sustentar o tempo de forma estável e
contínua. Os exercícios são simples e diretos: marcar o pulso com o corpo, construir
movimentos contínuos mantendo o tempo e, inicialmente, acompanhar músicas em execução.
Em seguida, o estudante passa a produzir o ritmo ativamente, executando frases rítmicas por
meio de baquetas, palmas ou estalos de dedos, consolidando a relação entre pulso, gesto e
produção sonora.
Aqui um vídeo onde mostramos na prática como podemos estudar frases rítmicas desde essa
orientação.

A LOCALIZAÇÃO DAS NOTAS NO PULSO.
A segunda direção do estudo rítmico desenvolve-se na percepção exata do posicionamento
interna das notas dentro de cada tempo, ou seja, na percepção consciente da subdivisão
rítmica interna. Essa etapa tem como objetivo identificar com precisão onde cada nota se
encontra dentro do pulso, sempre sustentado fisicamente pelo pé.
Trabalha-se, inicialmente, com dois grandes grupos de subdivisão. O primeiro grupo é
composto por quatro notas por tempo, correspondentes às quatro semicolcheias. Para esse
grupo, utilizam-se frases de quatro sílabas, como a sistematizada por Edgar Nunes Rocca
(mestre Bituca), “chi-qui-ta-que”, vocalizações oriundas da tradição indiana, como “cha-ba-di-
mi”, ou ainda contagens diretas como “um-do-tre-qua”.
O segundo grupo corresponde às subdivisões de três notas por tempo, as quiálteras, para as
quais se utiliza de forma simples e funcional, a frase “um-do-tre”.
A prática consiste em identificar cada nota da subdivisão enquanto o pulso é mantido com o
pé. As vocalizações podem ocorrer de diferentes formas: cantando apenas a nota escolhida
dentro da subdivisão, pronunciando todas as sílabas de maneira contínua ou acentuando
especificamente a nota que se deseja destacar. Esse procedimento desenvolve clareza rítmica,
controle de acentuação e consciência temporal.
O processo pedagógico é progressivo. Inicia-se com as notas mais facilmente identificáveis
dentro da subdivisão e, gradualmente, introduzem-se as posições mais complexas, como a
segunda e a terceira nota das quatro semicolcheias ou da quiáltera. Essa progressão permite
que o estudante construa segurança rítmica sem sobrecarga cognitiva.
A partir dessa base, o estudo se expande para a aplicação das subdivisões em frases rítmicas
concretas, como linhas tradicionais do Samba e do Maracatu, conectando a percepção rítmica
abstrata a contextos musicais reais e culturalmente situados.
Ao integrar pulso corporal, subdivisão vocalizada e escuta ativa, o curso consolida uma
percepção rítmica profunda, estável e consciente, que serve de fundamento para a leitura, a
improvisação e a execução instrumental.
Assim, o estúdio de percepção rítmica se afirma como um espaço formativo no qual a música é
compreendida, sentida e organizada internamente antes de ser executada, promovendo uma
relação mais orgânica, precisa e autônoma com o fazer musical.
EXERCICIOS
“X” significa som
“.” significa silêncio.
Divisão interna de quatro notas por pulso.
x… x… x.x. x.x.
..x. x.x. ..x. x…
x.x. x… ..x. x…
x..x ..x. x..x x…
x… x.x. ..x. .x.x
x… .x.. .x.. .x..
x.x. xx.x .x.x .xx.
Divisão interna de três notas por pulso.
.xx .xx
x.. x.x x.. x..
x.. x.x x.. x.x
x.x .xx x.x .x.