A Travessia do Aprendizado Musical. Cinco Metáforas.
Roberto Rutigliano (2025)
Autodidatismo & Papel do Mestre
O aprendizado musical se dá em múltiplos territórios: nos encontros pontuais, na convivência, nas entrevistas lidas, nos discos ouvidos à exaustão, no choque que provoca um concerto ao vivo. Somos, em grande medida, autodidatas, orientadores de nós mesmos. Às vezes, a transferência de conhecimento funciona mais pela oportunidade de fazer parte de um ambiente fecundo: a entrada em uma comunidade de prática onde se aprende por pertencimento, não apenas por instrução. Contudo, em quase todas as trajetórias surge a figura do mestre. Não como detentor absoluto do saber, mas como guia de entrada num processo de iniciação. Ele pode aparecer na nossa vida de forma indireta, como parâmetro estético, ou como alguém próximo que, em determinado momento, nos ajuda a subir degraus, afinar ouvidos e amadurecer nossa ligação com a música. Esse processo pode ser pensado a partir de cinco narrativas complementares:
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O DIAMANTE BRUTO.
Muito difundida, especialmente em contextos tradicionais, é a imagem do aluno como uma pedra preciosa que aguarda ser lapidada. Aqui, o protagonismo é do professor: ele apara arestas. O aluno não é passivo, mas a direção estética parte de fora. -
O MINEIRO (NA LINHA DE BILL EVANS).
Em contraponto, podemos imaginar o professor não como lapidador, mas como aquele que entrega as ferramentas: a picareta, a pá, o capacete, a lanterna e aponta a entrada da mina. O diamante já está lá, mas é preciso coragem, esforço e persistência para escavá-lo. Nessa visão, alinhada ao pensamento do pianista Bill Evans — para quem o ensino é um ato de libertação criativa —, o protagonismo é do aprendiz. O mestre orienta, fornece ferramentas, mas é o aprendiz que precisa buscar o tesouro. -
O CONHECIMENTO QUE SE REVELA (ALETHEIA / ÌMỌ̀ LẸ̀).
Na tradição africana do Ifá, o saber não é extraído; ele se revela. Escutamos, observamos, repetimos, até que um véu cai. Atravessamos o ego, a vaidade, a pressa… e, de repente, vemos diante de nós aquilo que estava oculto. Essa experiência, que o filósofo Martin Heidegger nos aproximou da tradição grega, se chama Aletheia. Ela quer dizer saber, saber no sentido de desocultamento. Ela corresponde ao momento em que o conhecimento passa a ser evidente. É o que os yorùbás chamam de Ìmọ̀lẹ̀: tornar-se luz. -
O JARDIM (O CUIDADO).
Uma das metáforas mais generosas da educação evoca o cultivo: regar diariamente, proteger do vento forte, saber esperar as estações. Aqui, o aprendizado é orgânico. Não se força o broto; criam-se as condições para que ele surja. Essa visão lembra que música exige tempo, paciência, permanência e vínculo. -
A DOR E A EXCELÊNCIA (O IMPULSO DO INALCANÇÁVEL).
Em “O Perseguidor”, conto de Julio Cortázar, o protagonista (inspirado em Charlie Parker) vive uma angústia criativa: ele intui que existe uma música transcendente que ele não consegue alcançar. Quando diz “Isso eu já toquei amanhã”, expressa a tensão entre visão e execução. Essa “dor” não é sofrimento vazio; é também uma força que impulsiona o artista a nunca se acomodar.
Essas cinco metáforas — lapidação, mineração, revelação, cultivo e tensão criativa — não se excluem. Elas se entrelaçam. Talvez todas façam parte de nossa travessia. Lembram-nos de que aprender música nunca é apenas o desenvolvimento de uma destreza. É feito de entrega e presença e nos promete, acima de tudo, o desocultamento: o encontro com aquilo que já está em nós, aguardando ser revelado.