ROBERTO RUTIGLIANO (2025)

O texto de Roberto Rutigliano mostra como a escuta profunda e ativa orienta o estudo musical.
Para exemplificar a orientação pedagógica ele usa neste caso versões de “Killer Joe” como exemplos práticos.

A ESCUTA.
O estudo musical não se realiza apenas com o instrumento nas mãos. A audição é uma parte fundamental do aprendizado, porque orienta a compreensão do estilo, da interpretação e das possibilidades expressivas. Escutamos o som do nosso instrumento, escutamos os músicos com os quais tocamos e escutamos música de forma regular como parte do estudo.

ORIENTAÇÃO PEDAGÓGICA.
Este tipo de abordagem de escuta orienta o estudo. Ele se propõe comparar versões diferentes de uma mesma música para desenvolver percepção de forma, compreensão das funções harmônicas, possibilidades rítmicas, noção de linguagem e estilo e flexibilidade interpretativa. A prática de ouvir de forma profunda e ativa identificando introduções, grooves, improvisos, codas, variações rítmicas e escolhas de arranjo faz com que se percebam as diferentes decisões musicais e os diferentes contextos que elas podem gerar. Assim, a escuta deixa de ser apenas um ato passivo e se torna uma ferramenta concreta de estudo, que ilumina as possibilidades de interpretação e amplia o senso criativo e o vocabulário do músico.

Ouvir diferentes versões de uma mesma composição amplia a percepção musical. Isso cria familiaridade com a forma, revela mudanças de arranjo e permite entender como cada intérprete enxerga o mesmo material de maneiras distintas. A música “Killer Joe”, de Benny Golson, é um ótimo exemplo para observar como a escuta pode guiar o estudo. A música originalmente é um Medium Swing com forma AABA.

AQUI AS DIFERENTES VERSÕES.

  1. Benny Golson – Versão original (Medium Swing)


    A gravação de Golson serve como referência. O tempo médio garante um swing confortável, permitindo perceber claramente a estrutura do tema. O acompanhamento do piano é discreto, mas fundamental para a definição do clima. A forma aparece de maneira direta: tema, improvisos na parte A, interlúdio, retorno ao tema e uma coda em fade out (diminuição gradual da dinâmica). Escutar esta versão ajuda a entender a concepção original, a base sobre a qual outras interpretações irão dialogar ou se afastar.

  2. Jorge Dalto – Latin Jazz (Swing com acento latino)


    Aqui, a escuta revela como as escolhas rítmicas alteram completamente o caráter da música. A abordagem no estilo de Latin Jazz cria outra sensação de balanço, mesmo mantendo um andamento confortável. O ritmo é um Cha-Cha. A introdução define o groove, a exposição do tema e o improviso dentro da forma mostram a direção da abordagem. O solo de percussão sobre harmonia parada e a coda com pequenos improvisos exemplificam como elementos simples podem transformar a estrutura. Comparar esta versão com a original ajuda a perceber que o ritmo pode ser o principal agente da mudança estética. Nota: o improviso de piano de Jorge Dalto é algo realmente histórico.

  3. Antônio Adolfo – Samba Jazz (Tempo veloz e dinâmica intensa)


    Nesta interpretação, o tempo mais rápido e a linguagem do Samba Jazz criam uma energia distinta. A introdução curta define o groove e a forma mais expansiva deixam claro como pequenos ajustes podem gerar outra narrativa musical mais complexa. A melodia passa por mudanças rítmicas, e os improvisos se distribuem entre as partes A e B, gerando uma sequência longa e variada de solos. A entrada da guitarra e depois do piano improvisando em distintas partes do tema tenta reforçar a sensação de solos com diferentes bases harmônicas. Essa versão, mais brasileira, demonstra como a mesma composição pode ser explorada em diferentes contextos rítmicos.

  4. Quincy Jones – Medium Jazz com arranjo elaborado


    A leitura de Quincy Jones destaca o papel do arranjo na construção de uma identidade sonora. A música começa com groove de baixo e bateria, seguido por um acompanhamento de piano muito bem definido. A interrupção da base no B, a preparação para o último A, os improvisos de flauta e trompete e a entrada do coral mostram uma concepção mais ampla, na qual cada seção acrescenta um novo elemento. Essa escuta ajuda a perceber como escolhas de textura, instrumentação e organização formal influenciam a percepção da mesma peça.

Rio de Janeiro 2025.