
BODY AND SOUL: AS POSSIBILIDADES DE TOCAR UM STANDARD
Roberto Rutigliano
O que tocamos em uma música está sempre orientado por um conceito. Quando falamos em conceito, não estamos nos referindo apenas ao arranjo ou à estrutura da música. O conceito é o caminho artístico que orienta todas as decisões da interpretação; é o contexto dentro do qual escolhemos tocar.
Esse contexto pode estar mais ligado à tradição, ser mais clássico ou mais aberto à experimentação. Pode, inclusive, representar uma síntese dessas diferentes abordagens. O importante é compreender que não existe uma única maneira “correta” de interpretar um tema: existem diferentes conceitos que conduzem a diferentes comportamentos musicais.
Se nos situarmos no universo do jazz e compararmos, por exemplo, as gravações do standard Body and Soul por: Coleman Hawkins, John Coltrane e Dexter Gordon, encontraremos três caminhos distintos. Todos interpretam a mesma composição e não há, propriamente, um arranjo radicalmente diferente: em essência, apresentam o tema seguido de improvisações. No entanto, cada um estabelece uma relação própria com a melodia, o tempo, o fraseado, a harmonia e a construção narrativa do improviso. Não se trata apenas da quantidade de notas ou de diferenças de arranjo, mas de uma maneira singular de se comportar musicalmente.
É nesse território que entramos quando falamos de conceito. O conceito antecede a execução. Ele define a direção estética, a linguagem e a intenção artística. Antes de decidir o que tocar, o músico precisa compreender qual é sua intenção e para onde deseja conduzir a música.
Muitas vezes, o ponto de partida é saber exatamente o que não tocar, operando a partir da afinidade estética compartilhada com os músicos com quem se está tocando.
Refletir sobre conceito é refletir sobre identidade artística. É compreender que uma mesma obra pode revelar universos completamente diferentes quando muda a perspectiva de quem a interpreta.
Vamos ouvir, primeiro, uma possibilidade mais clássica de interpretação; depois, uma abordagem mais abstrata; e, por fim, uma síntese entre essas duas concepções.
Primeiro, a versão de Coleman Hawkins & His Orchestra, gravada em 1939 (com Arthur Herbert na bateria). A gravação de Coleman Hawkins ajudou decisivamente a consagrar o saxofone tenor como um dos grandes protagonistas do jazz.
https://youtu.be/LuNrVHCBSjE?si=PJv5hb2AhVVXQABo
Em seguida, no extremo oposto, a versão de John Coltrane, gravada em 1960 (com Elvin Jones na bateria).
https://youtu.be/4azzupZwiy4?is=_U-490Nf0mBeqgbO
Essa gravação tornou-se histórica porque Coltrane desconstruiu completamente a abordagem clássica da balada eternizada por Coleman Hawkins. Em vez de manter o andamento lento tradicional e o percurso harmônico convencional, Coltrane e seu grupo aplicaram uma rearmonização modal sustentada por baixo pedal, intercalando momentos em double-time com frases de alta densidade harmônica. O resultado foi a transformação desse standard em um verdadeiro divisor de águas na linguagem do jazz moderno.
Por fim, a versão ao vivo de Dexter Gordon, gravada em 1964 (com Daniel Humair na bateria):
https://youtu.be/Ucq0Xr5g8R4?si=gHtoEFtC4awcJM_X
Body and Soul foi a música que consagrou o saxofone tenor como um dos grandes protagonistas do jazz. Nessa interpretação, Dexter Gordon faz diversas citações musicais à antológica gravação de Coleman Hawkins e, ao mesmo tempo, incorpora uma postura e um frescor já influenciados pela linguagem coltraniana, criando uma síntese entre tradição e modernidade.
Composta por Johnny Green, com letra de Edward Heyman, Robert Sour e Frank Eyton, Body and Soul tornou-se um dos grandes clássicos da canção norte-americana dos anos 1930. Recriada até hoje nos palcos do mundo inteiro, continua sendo um dos standards mais gravados da história do jazz.
O título Body and Soul significa literalmente “Corpo e Alma”. A expressão transmite a ideia de entrega completa: amar alguém com todo o ser, física e espiritualmente. Talvez essa seja também uma bela definição do que significa fazer música.
Muito bom. Abraço